A tendência crescente de desvalorização do papel dos farmacêuticos especialistas em Análises Clínicas e Genética Humana 761

Os farmacêuticos analistas clínicos são pilares da medicina laboratorial, elos essenciais entre a tradição e a modernidade.

Numa pequena rua do Porto, há três décadas, existia um laboratório de análises clínicas onde o farmacêutico conhecia pelo nome cada paciente que entrava pela porta. Hoje, esse mesmo espaço pertence a uma grande rede internacional, e os números substituíram os nomes. Esta transformação não é apenas uma história isolada – é o retrato de uma mudança profunda que varreu o setor em Portugal.

A evolução dos laboratórios de análises clínicas no país conta uma história de metamorfose que merece nossa atenção. O modelo tradicional, onde farmacêuticos e médicos eram proprietários dos laboratórios, criava um equilíbrio natural entre o rigor científico e o atendimento humanizado. Era um tempo em que o resultado de uma análise vinha acompanhado de uma explicação personalizada, e onde a relação entre o profissional de saúde e o utente ia além dos números impressos num papel.

No entanto, o vendaval da modernização trouxe consigo ventos de mudança. A entrada de grandes grupos empresariais no setor, embora tenha trazido eficiência operacional e tecnologia de ponta, corre sérios riscos de poder sobrevalorizar a lógica da rentabilidade. Os laboratórios podem transformar-se em unidades de negócio, onde os indicadores financeiros se poderão sobrepor aos indicadores de qualidade. É precisamente neste contexto que o papel do farmacêutico analista clínico se revela ainda mais crucial – como guardião científico e técnico que garante a manutenção dos padrões de qualidade e rigor, independentemente das pressões comerciais. A sua formação especializada e compromisso com a excelência laboratorial funcionam como um contrapeso fundamental às exigências puramente económicas, assegurando que o foco principal permanece na fiabilidade dos resultados e na segurança do paciente.

Particularmente preocupante é a situação no Serviço Nacional de Saúde, onde se observa uma tendência crescente de desvalorização do papel dos farmacêuticos especialistas em Análises Clínicas e Genética Humana. É como se estivéssemos a descartar décadas de conhecimento especializado e experiência acumulada, numa decisão que parece ignorar que a excelência laboratorial nasce precisamente da diversidade de saberes.

Os farmacêuticos analistas clínicos não são apenas técnicos qualificados – são cientistas com uma formação rigorosa em áreas cruciais como bioquímica, hematologia, microbiologia e genética. São profissionais que, ao longo de anos de formação especializada, desenvolveram uma capacidade única de interpretação e validação de resultados, contribuindo para diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes.

A automatização e a tecnologia são bem-vindas, mas não podem substituir o olhar crítico e a experiência humana. Um resultado laboratorial não é apenas um número numa folha – é uma peça num puzzle complexo que pode determinar decisões cruciais sobre a saúde de uma pessoa.

O futuro dos laboratórios de análises clínicas em Portugal encontra-se numa encruzilhada. Por um lado, a pressão pela eficiência e rentabilidade; por outro, a necessidade imperativa de manter os mais elevados padrões de qualidade e segurança. A solução não está em escolher entre um ou outro, mas em encontrar um equilíbrio que preserve o melhor dos dois mundos.

É fundamental que os decisores políticos e os gestores de saúde compreendam que a excelência laboratorial não se mede apenas por métricas financeiras. A presença de equipas multidisciplinares, onde farmacêuticos e médicos trabalham em colaboração, não é um luxo – é uma necessidade para garantir a qualidade e segurança dos serviços prestados.

O desafio para o futuro será encontrar um modelo que consiga conjugar a eficiência operacional com a humanização do serviço, a tecnologia com o conhecimento especializado, a rentabilidade com a qualidade. Só assim poderemos garantir que os laboratórios de análises clínicas continuam a servir o seu propósito fundamental: contribuir para a saúde e bem-estar dos cidadãos.

Porque no final, não podemos esquecer que por trás de cada tubo de ensaio, de cada resultado, existe uma pessoa à espera de respostas que podem mudar a sua vida. E isso exige o melhor que a ciência e os seus profissionais têm para oferecer.

 

Henrique Reguengo

Candidato ao Conselho do Colégio de Especialidade de Análises Clínicas e de Genética Humana da Ordem dos Farmacêuticos (Lista C)