
O ‘Ponto Farma – Proximidade, Orientação, Necessidades, Tempo, Objetividade’, desenvolvido e implementado pela Farmácia Moutinho, em Cabeceiras de Basto, liderado pelo farmacêutico Hugo Oliveira, reflete o compromisso com iniciativas que visam responder às necessidades específicas da comunidade, inspirando outras equipas. O projeto foi um dos candidatos ao Prémio Almofariz Intervenção na Comunidade by Laboratórios Azevedos 2024.
Com o ‘Ponto Farma’, a Farmácia Moutinho mostra que é possível inovar e contribuir para a melhoria da saúde pública, mesmo a partir de uma pequena vila. O projeto apresenta-se como uma solução inovadora para aproximar os serviços farmacêuticos da população idosa e vulnerável do concelho de Cabeceiras de Basto.
Desde a sua implementação, em janeiro de 2024, tem demonstrado resultados promissores ao aliar tecnologia, literacia em saúde e acompanhamento personalizado.
Motivação e contexto
O ‘Ponto Farma’ “surgiu da necessidade de proximidade junto aos utentes e clientes”, avança o diretor técnico da Farmácia Moutinho, Hugo Oliveira. O cenário demográfico do concelho, marcado por uma população envelhecida – com a população jovem a diminuir e a população idosa a aumentar, o que leva a um aumento do rácio idosos por cada 100 jovens (184 em 2021 face a 118 em 2011) – e com pouca formação em saúde, foi o ponto de partida para este desafio. “Estes dois fatores levam a que uma grande parte da população tenha baixo poder económico, pouca literacia em saúde e estilos de vida menos saudáveis.
Isto resulta numa população com muitas comorbilidades e, consequentemente, utentes polimedicados e/ou subdiagnosticados. Muitos dos utentes têm dificuldade em se deslocar à farmácia, seja por dificuldades de mobilidade física, seja por não terem meio de transporte próprio ou capacidade económica para realizar deslocações. Apresentam, também, dificuldade em gerir a sua medicação”, fundamenta o farmacêutico. Consequentemente, era “crucial” criar uma forma de levar os serviços farmacêuticos a estas pessoas.
Como funciona o projeto?
Ação de proximidade, o ‘Ponto Farma’ inclui acompanhamento regular por parte da equipa da Farmácia Moutinho, que se desloca periodicamente a pontos estratégicos do concelho de Cabeceiras de Basto, como juntas de freguesia, centros de convívio e lazer, entidades de serviço de apoio domiciliário, o núcleo local da Cruz Vermelha Portuguesa, entre outros que se revelem importantes. Idealmente, são realizadas uma a duas visitas por semana a cada instituição.
Os profissionais de saúde prestam apoio aos frequentadores ou utentes destes espaços, denominados ‘Ponto Farma’, através de sessões de formação, palestras, rastreios de saúde, consulta farmacêutica (revisão da medicação), medição de parâmetros bioquímicos, sessões de literacia em saúde, prestação de serviços, como a preparação individualizada da medicação (PIM), e acompanhamento farmacoterapêutico. Sempre que necessário, sinalizam e encaminham as pessoas para outros cuidados de saúde.
Todos os utentes acompanhados têm uma ficha de registo dos seus medicamentos e parâmetros bioquímicos, o que permite à Farmácia Moutinho monitorizar a adesão à terapêutica e antecipar necessidades, como a reposição de medicação. “Através deste registo, a farmácia recebe um alerta com a indicação dos medicamentos que estão a terminar a cada utente, conseguindo avisá-lo para esse término e avaliar a adesão à terapêutica. Perante estes alertas e verificação da adesão à terapêutica, pode ser necessário sugerir aos utentes a PIM, estando a farmácia apta a prestar esse serviço, se o utente assim o desejar”, expõe Hugo Oliveira.
O projeto incorpora tecnologia, facilitando o contacto entre os utentes e a farmácia. São disponibilizados equipamentos, como tablets ou telemóveis, onde estão instalados softwares e aplicações digitais, como a app Farmácia Moutinho, para permitir uma comunicação rápida com a farmácia. Além disso, possibilita o registo das medições realizadas no ‘Ponto Farma’, permitindo a centralização dos dados e uma melhor monitorização do estado de saúde dos utentes. “Cada instituição ou pessoa responsável tem um tablet ou telemóvel com acesso à nossa app, na qual registamos os parâmetros bioquímicos do utente, o que permite comparar os resultados atuais com os anteriores. Podem enviar todas as receitas médicas, facilitando a interação entre farmácia e utente, sem que este tenha de se deslocar à farmácia”, esclarece. Adicionalmente, estes equipamentos permitem às instituições parceiras preencher um inquérito pré-definido para novas adesões.
No caso de um utente desejar participar no projeto, a instituição abre a ficha do utente e recolhe alguns dados importantes através de um formulário online. Desta forma, a farmácia consegue ter acesso a esta informação previamente para melhor organizar a sua visita e otimizar o atendimento ao utente.
Um outro objetivo importante do projeto prende-se com o registo de todas as intervenções farmacêuticas realizadas e o estudo de métricas importantes, como a adesão à terapêutica, antes e após a intervenção de proximidade, o registo de dificuldades em tomas e não cumprimento do esquema posológico, a identificação de duplicações medicamentosas, os erros de prescrição, etc. “Este registo permitirá a realização de um estudo sobre a importância do acompanhamento farmacêutico e o impacto na saúde dos utentes. Assim, conseguimos medir o impacto do projeto, seja a nível da adesão à terapêutica, melhoria da qualidade de vida, melhoria do estado saúde dos utentes e aumento da literacia em saúde”, aponta o farmacêutico.
Fortalecer laços com a população
Segundo Hugo Oliveira, as mais-valias do ‘Ponto Farma’ são vastas: “Desde a adesão à terapêutica, até à melhoria da qualidade de vida dos utentes, mas o que destaco mais é a proximidade que se estabeleceu entre a farmácia e a população”.
De facto, o impacto do projeto transcende a prestação tradicional de serviços, alterando “significativamente” a perceção da farmácia junto da comunidade cabeceirense. “Se antes estávamos à espera que o utente nos “entrasse pela porta adentro”, agora nós vamos ao encontro do utente e, muitas vezes, conseguimos detetar precocemente qualquer tipo de problema e antecipar a sua resolução de uma forma mais eficiente”, sublinha.
Impacto comunitário
Com mais de 110 utentes acompanhados até ao momento, os dados preliminares demonstram que várias pessoas não tomavam os seus medicamentos corretamente. “30% não respeitavam a altura do dia da toma de pelo menos um medicamento, 35% chegavam ao final de uma semana com pelo menos um medicamento por tomar, 25% tomavam medicamentos em duplicado”, detalha Hugo Oliveira. “
Aos utentes que, por sugestão nossa, começou a ser aplicada a PIM e a sua revisão terapêutica em parceria com os enfermeiros e médicos de família, estes problemas deixaram de existir e, com isto, a sua saúde está muito melhor controlada”, divulga. O diretor técnico menciona que “nas nossas avaliações de parâmetros bioquímicos, foi possível identificar em 30% dos utentes a sua glicemia demasiado alta e em 40% dos utentes a pressão arterial descontrolada. Estes utentes foram referenciados para uma consulta médica”.
“Uma intervenção positiva”
O projeto conta com o apoio de várias instituições locais, nomeadamente o Centro Social e Paroquial de Bucos, o Centro Social e Paroquial de Riodouro, o Centro de Convívio e Lazer de São Nicolau, o Espaço de Convívio e Lazer de Petimão, a Cruz Vermelha Portuguesa – Núcleo de Cabeceiras de Basto e a Santa Casa da Misericórdia de Cabeceiras de Basto.
Entretanto, a Farmácia Moutinho estabeleceu uma nova parceria com o projeto ‘Cuidar Mais’ da Basto Vida – Serviços de Ação Social e Cuidados de Saúde. Além da equipa da Farmácia Moutinho – três farmacêuticos e uma técnica de farmácia –, estão envolvidos no ‘Ponto Farma’ outros profissionais de saúde, entre eles dois nutricionistas, um psicólogo e um fisioterapeuta. “Eles acompanham- -nos nas nossas visitas e identificam qualquer tipo de problema, quer seja nutricional, mental, físico ou social”, assinala Hugo Oliveira, garantindo que “somos sempre recebidos de braços abertos e muito acarinhados pelos utentes e colaboradores de cada instituição, que demonstram sempre uma grande alegria e satisfação em cada visita”.
“Juntos somos mais fortes!”, afirma, para reforçar que “o funcionamento do projeto exige uma relação de colaboração de várias partes para que mais pessoas tenham a possibilidade de ser envolvidas”. O interveniente reconhece o contributo das entidades colaboradoras para o sucesso do ‘Ponto Farma’: “Quero agradecer a todos os parceiros que fazem deste projeto uma intervenção positiva na comunidade”.
A Farmácia Moutinho tem apostado forte na comunicação do ‘Ponto Farma’, sobretudo através das redes sociais: Facebook, Instagram e TikTok. Estas ferramentas são consideradas “essenciais” para o projeto chegar mais longe. “Muitas das pessoas idosas não aceitam ou não compreendem as suas limitações e as redes sociais são importantes, pois através delas conseguimos que a nossa mensagem seja transmitida aos familiares das gerações mais novas, para que possam de alguma forma levar os seus entes queridos a aderir a este projeto e melhorar a sua qualidade de vida”, realça o nosso entrevistado.
Superação de desafios
Entre os principais desafios no processo de criação do ‘Ponto Farma’, Hugo Oliveira destaca a reorganização da equipa e os custos associados. “A implementação não se revelou fácil. Sendo um serviço totalmente novo, tivemos de adaptar os recursos humanos a este projeto que exige muita atenção e disponibilidade por parte dos colaboradores, mas tudo foi ultrapassado com uma boa coordenação e empenho da equipa.
A nível financeiro também se tornou uma dificuldade, devido às despesas de transporte e equipamentos”, anota. Face ao exposto, designadamente as dificuldades a nível de financiamento, o farmacêutico defende que o papel desempenhado pela rede de farmácias no apoio às políticas de saúde de proximidade deveria ser mais valorizado e apoiado: “O papel que as farmácias desempenham é muito relevante na prevenção de doença. O projeto ‘Ponto Farma’, em concreto, é como uma ‘vacina’ que vai permitir a prevenção da doença e, consequentemente, uma redução de internamentos e uma menor despesa do Estado. Por isso, considero que o apoio a este tipo de iniciativas poderia ser considerado um investimento que num futuro próximo traria redução de gastos para o próprio Estado”.
Apesar das dificuldades, Hugo Oliveira faz um balanço “extremamente positivo” deste primeiro ano do ‘Ponto Farma’, “não só pelo ganho em saúde que contribuímos para os nossos utentes, mas também pela nossa realização pessoal”.
Um modelo a replicar
O futuro do ‘Ponto Farma’ passa pela expansão e implementação de melhorias. O sonho é ambicioso: levar proximidade e cuidados de saúde a áreas menos servidas, numa verdadeira revolução na relação entre farmácias e comunidades. “Queremos estabelecer parcerias com outras instituições e serviços e, mais do que isso, desejamos que este projeto seja replicado e que outras farmácias o consigam implementar junto das suas comunidades, pois sabemos que existem muitos concelhos e freguesias de Portugal que apresentam as mesmas caraterísticas que Cabeceiras de Basto. Com tudo isto, esperamos espalhar vários ‘Pontos Farma’ pelo país”, revela Hugo Oliveira.
Para concretizar uma iniciativa desta envergadura, são necessárias competências e ferramentas específicas. “Organização, trabalho em equipa, coordenação, resistência e persistência para lidar com as adversidades que vão surgindo ao longo do caminho são fundamentais”, enumera o diretor técnico. Mas, acima de tudo, “muita motivação para continuar a fazer crescer este projeto”.
No caminho certo
Recentemente, o ‘Ponto Farma’ foi apresentado e distinguido no evento anual da Rede Elo Farma, que a Farmácia Moutinho integra. “Esta distinção é, para nós, um orgulho, pela sensação de dever cumprido. É uma confirmação de que estamos no bom caminho e que todo o nosso esforço e toda a nossa dedicação estão a ser visíveis e reconhecidos. Gostava de aproveitar este espaço para agradecer ao meu irmão, Dr. Ernesto Oliveira, à Dra. Sofia Carvalho, à Dra. Sara Basto e, mais recentemente, à Dra. Ângela Santos, pela contribuição em tornar este projeto uma realidade”, enaltece Hugo Oliveira.
Este reconhecimento também foi um incentivo para a Farmácia Moutinho concorrer, pela primeira vez, ao Prémio Almofariz Intervenção na Comunidade by Laboratórios Azevedos. “Um dos motivos da participação foi o prémio monetário, uma vez que nos ajudaria a expandir e a melhorar o nosso projeto, pois implica muitos custos”, anuncia.
Com olhos postos no futuro, a Farmácia Moutinho tem planos ambiciosos para 2025. “Já temos um novo projeto em ação que complementa o que temos vindo a elaborar ao longo de 2024”, indica Hugo Oliveira, antecipando uma segunda candidatura ao prémio da FARMÁCIA DISTRIBUIÇÃO.
Farmácia centenária
Com origens que remontam a 1907, a Farmácia Moutinho sempre teve uma presença marcante em Cabeceiras de Basto. Ao longo das décadas, foi palco de diversos momentos relevantes, acumulando histórias que atravessaram gerações.
Em 1987, o farmacêutico Ernesto Oliveira, pai do atual diretor técnico, assumiu a liderança da farmácia, dando continuidade a um legado de excelência. “O meu irmão, que tem o mesmo nome que o meu pai, era o antigo diretor técnico, lugar que ocupei em meados de 2024, aquando da sua mudança para outra farmácia”, clarifica Hugo Oliveira.
Atualmente, a equipa é composta por nove colaboradores. “A Farmácia Moutinho distingue-se pela competência técnica dos seus profissionais, os quais combinam formação específica com simpatia e boa disposição para atender todos os utentes e para prestar todos os serviços junto da comunidade”, descreve. Regressando ao ‘Ponto Farma’, o farmacêutico conclui que “a maior aprendizagem que retiramos deste projeto é a importância que tem o acompanhamento de proximidade e o papel que as farmácias comunitárias podem e devem fazer”.
Farmácia Moutinho
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Artigo publicado originalmente na edição #384 da revista FARMÁCIA DISTRIBUIÇÃO, que estreia a rubrica ‘Intervenção na Comunidade 2024’, destacando projetos de farmácias do país que se candidataram, no ano passado, ao Prémio Almofariz Intervenção na Comunidade by Laboratórios Azevedos.